sexta-feira, 9 de março de 2012

Rimas do interior

Quantas ausências tenho
Nos arames do varal
Quantas almas tenho
Espalhadas no avental.

Quantas costuras tenho
Nos avessos do vestido
Quantas dobras tenho
Nas pregas do tecido.

Quantas mágoas tenho
Assombrando meu quintal
Quantas frases tenho
Nos muros e no vendaval.

Recolho as folhas na cesta de sisal.
Refaço as dobras sem rumo.
Repasso a vida que pulsa
Cosida nos fios de prumo.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Cena amante

A madrugada mágica
tal estrada de prata
No orvalho, descansa.

Descansam no abraço apertado,
da amizade de raro frasco.
Num pacto, no fato, lugar ao lado.
Vibrantes amantes descansam na cama de prata, mágica.
Na rara carruagem plácida,
quase nada.
Quase arte.

Na praça e a pá: trabalho e parto.
No pacto de fada,
De verdade alada,
De calma amada.
Quase um fato. Um jato.
Quase um mapa. Um traço.
Descansam no ato do aplauso.
No palco da praça, de graça.
Fato que é hiato e agrado.
Pacto afiado do abraço.
Ah! Rara amizade de raro frasco.
Amizade mágica,
na madrugada, descansa.
Nas palavras cortadas.
No quarto em pedaços.
Quase um frasco quebrado.
Quase um pacto de orvalho.

Quase uma palavra metade.
Na metade dos amantes
o laço estampado,
colado no falo,
gravado na alma.

A face em chama canta
E o canto é palavra cortada,
É pedaço do quarto
Jogado na lama.
É punhado de alma
Deixado de lado.
É migalha de orvalho,
Brilhando na cama.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Poema Selênico

As deusas penteiam seus cabelos.
As estrelas cadentes, penteiam o vento.
As Nereidas, que safadeza,
penteiam os pentelhos de Perseu.

As Plêiades, belezas ardentes,
cheias de medo,
contemplam os beijos de Betelgeuse
na serpente sem cabeça.

Na TV, os cometas acenam
seus bilhetes falsetes e
Atenas chega reluzente, em foguete de seda.

Os Gêmeos desenham sua beleza
no coreto de madeira,
com as canetas de Helena.

O sorvete avermelha os dentes
das ninfetas.
Prometeu e três sereias
deitam no tapete verde sem etiqueta.

No templo, Zeus, o blogueiro,
lê para Vênus,
pequenos trechos de Lênin,
sem as espessas lentes.

O lado oculto da lua

Lado dos sons sussurrados,
da respiração interrompida.
Trem da estação é caixa perdida.

Lado da cabeça baixa,
da roupa amassada e cerzida.
Trem da estação é face escondida.

Lado da fruta temporã,
do gosto de suco amargo.
Trem da estação é corpo curvado.

Lado das lágrimas acenadas,
Do grito pra dentro.
Trem da estação é mero lamento.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Agora eu sei

Agora a luz é pouca.

As janelas sem fôlego.
E os sorrisos esmaecidos, as palavras sem censura.
Os passos ficam nas ruas
e a penumbra está em toda parte.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Bola de neve

Fica sempre a surpresa diante do fato.
Derretida, gelada e úmida, quase inexistente.
Fica sempre translúcida diante do olhar.
E se perpetua nos instantes, brilhantes do reflexo,
do espelho, no chão que se esvai.
Fica quase sempre a lembrança daquilo que deveria ser.
Nem sempre fica a beleza entre o real e o inatingível.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

O outro lado

A moça que deixa seus sapatos,
sem cuidado, um pé sobre o outro,
nos contornos dos caminhos,
nas calçadas, no asfalto,
pode ter sentido o amor desprender-se de seus lábios,

pode ter perdido os acordes finais de sua canção.

Ou então compreendeu que os caminhos curvos,
indicados pelas setas coloridas,
enfeitados com as elegantes grinaldas,
tingidos pelo silêncio,
são as trilhas do encanto descortinadas pelo avesso.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Contas

Eram de pérolas, as contas.
Tão pálidas...
Partiram-se do fio.
Uma a uma, caíram ao chão.
Caíram cheias de beleza,
cadenciadas,
numa dança ritmada.
Espalharam-se entre os aromas,
entre os suspiros e os espantos.
Desenharam linhas transparentes
e amarraram os olhares atentos.
Enfeitiçaram as rendas e as plumas
e seguiram intrepidamente ao chão.

Desprenderam-se do fio tênue.
Assim como as vidas se desligam do encanto.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Festa do branco

Na festa do branco eles se esconderam no fundo da essência,
do prazer,
no profundo sentimento da alegria.
Rodopiaram,
tingiram suas almas de cores leves,
até os fios da cortina da manhã trazerem outro dia.

Eles todos

Quando estão todos juntos, felizes,
não sabem ao certo se devem sorrir
ou manterem-se espantados.
Quando estão sozinhos, temerosos,
não dizem nada, se calam,
e deixam a luz sair de seus olhos,
e os ruídos de seus pensamentos.
Por isso, a cada dia que passa pergunto a eles todos:
o que fazem aí?
E eles espantados,
lentamente,
guardam o sorriso embaixo do braço
.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Descoberta

O encantamento reside entre o que se acredita e o que se fantasia.
E é nisso que sentimos a tênue linha do desconhecido.
Por isso, enquanto não sabemos o caminho,
é bom escolher entre o que é fácil e o que é certo,

e torcer para que não descarrilhemos o movimento das melhores coisas da vida.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Complexa rota

Na preocupante queda da noite
Jogam-se os efeitos colaterais.

É um sinal de alerta.
Os céticos querem reduzir os riscos
Das viagens, das rotas
e estimulam o recolhimento.
E os otimistas jogam ao chão
Tudo que é uso compartilhado:
do susto à inofensiva abertura do dia.

A timidez

Remexo, mexo, revejo
roupas íntimas.
Vasculho, mergulho
me deixo,
numa gaveta
perdida, cerzida,
sem eixo.
Sem pudor me vejo
dançando sem jeito,
diante de um espelho.

Brincadeira

O tucano esconde
O canto martelo
No bico amarelo
com ares de conde!

Os anjos do contra

Todos os anjos que aí estão
Repousando em meus ombros,
Ficam sorrindo.
Eu, só rindo deles!

Menina

Sua delicadeza passa por todos e chega antes de seu falar.
O som que vem dela coloca à mesa suas dúvidas, suas críticas.

Mas as pessoas só percebem o sentimento que emana do seu olhar.
Pois nele se revela a sensível menina que procura muito mais,

do que a vida está a lhe mostrar.

Angustia

Se a angústia arrebata o encanto, nada mais resta.
Nada mais se constrói, e o sorriso,
Companheiro da alma leve,
Dificilmente sobreviverá
Pois a alma assim,
Encostada num canto do corpo
Não será capaz de puxar as linhas para que o sorriso seja desenhado no rosto.

Segura no ar

A lua despencou do céu.
Escorregou e escondeu-se atrás do limite do olhar.
O céu que a continha não pode segurá-la.
A montanha fez de conta que nada via.
Nada fez para mantê-la no ar e somente decidiu ver a noite chegar.

Vorazes vozes

Tecem sabores os fios das velozes
e espremidas vozes nas ondas do ar.
A teia que trama a trama do falar
É a que salta das veias, das vozes aflitas,
lanças surdas e ferozes.
Nem sequer percebem
que ferem os odores,
que estrangulam os olhares.

São ausentes palavras, sensatas,
constantes risos, secos,
e os retrozes que desenrolam,
das vozes, os fios da angústia, do sabor,
emaranhados,
nos pequenos ossos do ouvir.

Mas num único instante,
os olhares interiores,
paralizados diante das
surpresas gastronômicas
calam as vozes,
olham para o prazer,
para os talheres.
Os aromas penetrantes
expulsam as vozes e
fazem emergir o silencio
das almas, no jantar.